Pular para o conteúdo principal

A terceira camisa: os exemplos estão virando fashion


Um olhar diferente sobre 3 formas de expressar o comportamento esperado de um sistema:
requisitos, testes e exemplos. Temperadas por uma metáfora esportiva.


Neste feriado, li uma matéria na revista Veja sobre as terceiras camisas dos clubes de futebol, que chamou minha atenção.
Os clubes de futebol sempre tiveram uma camisa oficial. Sempre houve também a camisa reserva, tradicionalmente usada quando o time não tem mando de campo e o padrão da camisa é parecido com o do rival. Mas, de um tempo para cá, a estrela é uma terceira camisa alternativa, utilizada para comemorar algum fato relevante: o centenário do clube, a obtenção de um título, a contratação de um craque ou, no fim das contas, para alavancar as vendas dos itens oficiais do clube. Camisas corinthianas listradas com roxo, torcedores da Lusa com uma cruz metaleira, cruzeirenses em degradé: campeões de vendas nas lojas esportivas.
Assim, algo ao qual que a maioria não dava muita importância (a existência de uma terceira camisa) virou um item fashion. De repente, descobriu-se que servia para alavancar a imagem e as finanças do clube, e passou a ser algo pensado, e se começou a descobrir o que funciona e o que não funciona: como deve ser o design, em que ocasiões o time deveria usar, quando lançar a nova camisa.
Afinal, eu não sou tão interessado assim em futebol ou em marketing esportivo, e o assunto deste blog deveria ser desenvolvimento de software. Acontece que tenho o vício de procurar metáforas para poder usar em sala de aula, e percebi uma analogia com a evolução na forma em que especificamos funcionalidade em sistemas de informação. Requisitos, testes e exemplos são formas diferentes de descrever o comportamento dos sistemas, e podemos associá-los a cada modelo de camisa.
Requisitos
Os requisitos são a camisa oficial. A partir do trabalho de Ivar Jacobson, como formalizar esses requisitos mereceu muita discussão: falava-se em desenvolvimento baseado em casos de uso. A notação de diagramas de casos de uso, desde o início, fez parte das notações de modelagem da UML. Quando foi proposto o processo unificado, diagramas e documentos de caso de uso passaram a fazer parte do conjunto de artefatos sugeridos (ou melhor, prescritos). Discussões intermináveis sobre minúcias dessas notações passaram a fazer parte de quem se interessava por metodologia.
Assim como os esquimôs têm muitos nomes para a neve, por conta da importância que esta tem para eles, passaram a ser utilizados muitos nomes para as atividades referentes a requisitos: levantamento, análise, elicitação, gerenciamento, especificação. Foram elaborados corpos de conhecimento e provas de certificação. Foram escritos livros inteiros e criados cargos específicos para lidar com requisitos: primeiro, o analista de requisitos e, depois, o analista de negócios. Cursos sobre a disciplina de requisitos são ministrados regularmente.
No caso dos esquimôs, podemos imaginar motivos pelos quais seria importante identificar diferentes tipos de neve. Numa viagem de trenô pela tundra, identificar sutis diferenças pode ajudar a evitar uma avalanche ou o mergulho nas águas geladas do Ártico: é questão de vida ou morte.
A sofisticação no tratamento dos requisitos poderia ser motivada pela percepção de perigos equivalentes ? Há três décadas, Barry Boehm alertava para o fato de que, no modelo vigente à época, errar nos requisitos tinha um impacto proporcionalmente muito maior, em termos de custo, nas etapas posteriores do ciclo de vida no software.
A mensagem passou a ser: não erre, seja muito cuidadoso com os requisitos, porque depois as consequencias serão desastrosas. Muitos interpretaram isso como perseguir um santo graal de requisitos completos, formalizados, detalhados e assinados com sangue no início do projeto. Hoje, sabemos que a cura foi pior que a doença, mas isso é assunto para outro post.
Testes
A camisa reserva é representada pelos testes, já que estes também são uma alternativa para a descrição do comportamento. Até pouco tempo atrás, não se dava importância real ao teste de software. Por quê ? Na verdade, já fiz antes essa pergunta: testar seria uma arte perdida ? As pessoas sabiam que o funcionamento de um sistema precisaria ser verificado de maneira adequada, mas as pressões de curto prazo sempre faziam com que o esforço de testes fosse empurrado com a barriga.
Na primeira década do século XXI, alguns fatores conspiraram para que o interesse em teste de software aumentasse. Um deles é a crescente penetração dos sistemas de informação no dia a dia das pessoas: os sistemas se tornam ao mesmo tempo mais críticos e mais complexos. O resultado das empresas depende cada vez mais do software que suporta suas operações, e o impacto direto dos defeitos no software passa a ser cobrado pelos seus usuários e percebido pelos tomadores de decisão.
Outro fator relevante foram as metodologias ágeis de desenvolvimento, que acordaram muitos profissionais de TI para a necessidade de testes, e passaram a utilizar testes automatizados como uma forma de especificação do comportamento dos sistemas. Note-se que esta visão invade a praia dos requisitos, e que contraria uma premissa tradicional da disciplina de testes: distinção entre requisitos e testes. Na visão tradicional, os artefatos de requisitos são uma das fontes para criar artefatos de teste, e se discute como derivar estes a partir daqueles.
Nesse processo, novas técnicas e ferramentas foram desenvolvidas, novas práticas e formas de gestão do esforço de testes surgiram. O papel dos profissionais de teste está sofrendo mudanças radicais e modelos estão sendo propostos para entender a disciplina de testes neste novo contexto.
Assim como na disciplina de requisitos, existe todo um ecossistema em torno de testes: associações profissionais, cursos, programas de certificação, modelos, empresas dedicadas exclusivamente a testes e cargos específicos. Testes têm um status emergente na sociedade.
Exemplos
A terceira camisa são os exemplos. De fato, são o patinho feio, a forma menos estudada de descrever o comportamento de um sistema. No entanto, são a forma intuitiva de captura regras de negócio junto a um especialista de domínio: as pessoas conseguem raciocinar melhor a partir de exemplos concretos. Os modelos abstratos, desde um ponto de vista cognitivo, são inferidos a partir de conjuntos suficientemente abrangentes de casos concretos. Agora, começa a haver um interesse em formular melhor práticas relacionadas a exemplos.
No entanto, muitas das propostas em metodologia de sistemas foram focadas em abstração. Apenas para citar um caso, uma das premissas dos documentos de casos de uso era a de serem uma especificação do comportamento do sistema, do ponto de vista do usuário: em muitas organizações, no entanto, eles foram sequestrados pelos técnicos e transformados em especificações formais em uma linguagem para iniciados, procurando abranger todos os caminhos alternativos, validações de domínio, exceções, regras de negócio e passos atrelados a uma certa implementação. Códigos como RN077, UC045 e A12 estão espalhados em um texto com dezenas (ou até centenas) de páginas.
Será que, nesse caso, não se seguiu a trilha errada ? Um especialista de domínio teria condições de entender esse formato ? Para efeito de compreensão da funcionalidade, isso funciona melhor que um conjunto consistente de exemplos concretos ?
Os exemplos começaram a ser estudados a partir do surgimento de ferramentas que usavam esse modelo de conjuntos de exemplos como forma de especificação de comportamento. A primeira destas ferramentas que adquiriu um uso amplo foi o FIT (framework for integration testing): os exemplos são expressos em formato de tabela, que é interpretada através de um adaptador (fixture), que aciona o sistema sendo desenvolvido usando como parâmetros os dados da tabela. Estes exemplos são chamados de testes de aceitação automatizados (talvez teste não seria a melhor forma de descrever: falo disso mais adiante). O FIT evoluiu para incorporar um front-end Wiki, chamado FitNesse, que torna o formato ainda mais próximo de um especialista de domínio.
A ideia é que o próprio especialista do domínio, ou um analista de negócios, ou um analista de testes seja responsável por essa especificação em forma de exemplo. No mínimo, o exemplo deve estar em um formato que todos consigam entender, e que não fique restrito a um perfil técnico.
Por quê prefiro chamar de exemplos e não de testes: a diferenciação é sutil. Se enfatizamos o aspecto do exemplo, não nos preocupamos tanto com classes de equivalência, cobertura e casos interessantes do ponto de vista de detecção de defeitos. Na qualidade de exemplo, o foco é na comunicação, no formato acessível. De fato, muito do que normalmente chamamos de testes no contexto de práticas ágeis poderia ser melhor descrito como exemplos.
As técnicas de TDD (desenvolvimento guiado pelos testes) e, por extensão, ATDD (desenvolvimento guiado pelos testes de aceitação) talvez seriam melhor entendidas se trocarmos "testes" por "exemplos". Brian Marick, justamente, propõe trocar a sigla TDD por XDD (eXample driven development). O objetivo principal é guiar o desenvolvimento, e para tal o papel de detecção de defeitos não é seu principal objetivo: o nome "testes" parece sugerir o contrário.
O BDD (desenvolvimento guiado pelo comportamento) utiliza este modelo de especificação baseada em exemplos, adicionando alguns formalismos e ferramentas. Mas o seu uso é suficientemente interessante para garantir livros inteiros apenas tratando do assunto. Fico devendo um post específico, podem cobrar.
A utilização de exemplos em geral, ATDD e BDD, têm provocado bastante barulho nos últimos tempos.
Exemplos agora estão virando fashion.
Eu ia discutir também a convergência entre esses três aspectos da especificação de comportamento em artefatos comuns, e seu efeito sobre a comunicação entre os envolvidos, mas essa elaboração fica para a próxima entrega. Até.

Comentários

Muito bom o artigo Jorge!

Gostaria de lembrar que tanto as camisas dos times de futebol, quanto os requisitos, testes e exemplos, são formas de comunicar algo a alguém.

E hoje em dia, os times estão utilizando essa camisa, visando os torcedores, se não me engano, alguns times até fazem pesquisas na internet. Ou seja, é uma camisa voltada mais para os torcedores, assim como os exemplos, são voltados para os clientes.

É importante dizer, que a existência dos três são importantes, embora os exemplos, costumem ser mais importante em projetos que temos os clientes atuando mais próximos da equipe de desenvolvimento.

Postagens mais visitadas deste blog

Você já pensou em ser palestrante em algum evento ?

Você já deve ter participado de algum evento e pensado como deve ser legal ser palestrante... E para falar a verdade, é muito bom mesmo. Eu adoro, o Vinicius adora e conheço muitas pessoas que curtem cada minuto da participação no evento como palestrante. Com certeza é uma responsabilidade a mais. Você sente medo, adrenalina, tem que se preparar. Literalmente coloca a cara a tapa para qualquer pessoa te avaliar em todos os sentidos. Qual o seu tom de voz?  Seus slides são legais? Você manja mesmo ?  Seu português está ok?  E as palavras em inglês ?  Teve algum deslize técnico? E MUITO mais.  Mas é claro que a exposição tem dois lados... e os resultados podem ser ótimos. Normalmente conhecemos mais pessoas como palestrantes e podem surgir boas oportunidades de negócio. É sempre positivo ter uma nova referência positiva quando as pessoas buscam nosso nome no Google, podemos fazer a diferença para quem está assistindo a palestra e muito mais.  No The Developer's

TDC INNOVATION lança University Pass

Modalidade de ingresso tem como objetivo ajudar na capacitação dos universitários Uma pesquisa realizada em 2020 pela Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom) diz que até o ano de 2024 o Brasil precisará de cerca de 420 mil profissionais na área de Tecnologia da Informação. Porém, por ano, a mesma pesquisa diz que o país forma apenas 46 mil profissionais capacitados no nicho. Pensando nisso, para ajudar na formação e capacitação desses jovens profissionais, o TDC INNOVATION, segunda edição do ano do The Developer's Conference, lança o University Pass, modalidade de ingresso que possibilita aceso digital gratuito a todas as palestras do evento, ou com 50% de desconto para quem preferir ir pessoalmente. Com o tema central “Desafios para a criação do futuro Digital”, o TDC INNOVATION ocorrerá entre 1 e 3 de junho, de forma híbrida: presencialmente no Centro de Convenções CentroSul, em Florianópolis, e com transmissão simultaneamente pela

Inscrever sua equipe em eventos de TI vale a pena? Entenda aqui

Os eventos de TI são importantes para o aprendizado contínuo, especialmente em uma área tão dinâmica, como a de tecnologia. A necessidade de estar sempre por dentro das tendências pode esbarrar em algumas objeções, como investir em especializações pouco práticas ou opções pulverizadas de mercado. Por isso, participar de conferências e assistir palestras de especialistas é uma excelente oportunidade para sua equipe se desenvolver. O melhor de participar de eventos de TI é expandir os conhecimentos e habilidades independentemente da experiência específica, seja um desenvolvedor web ou full stack, por exemplo, as conferências de tecnologia podem ajudar o profissional a se aperfeiçoar. Isso ocorre devido ao contato com outros especialistas e colegas da mesma área. Além disso, é possível descobrir novas soluções e fazer networking . Neste artigo, você conhecerá as vantagens da sua equipe participar em eventos de TI. Aproveite a leitura! Vantagens de participar de eventos de TI Se o seu ob

Entendendo como funciona a programação de computadores: linguagens de programação, lógica, banco de dados

Nesse post, diferente dos últimos que foram mais enfáticos nas experiências com tecnologias, vou focar um pouco mais nos profissionais que estão começando, ou pretendem ingressar na área de desenvolvimento de software, falando sobre conceitos fundamentais relacionados a programação em geral . Mercado de trabalho para programação Conforme já sabemos, o mercado de desenvolvimento de software, especialmente no Brasil, continua em franca expansão, sendo que cada vez mais as empresas buscam desenvolver seus próprios sistemas usando as mais diferentes e novas tecnologias. Algumas matérias interessantes: As seis profissões mais valorizadas em 2010 no IDG Now! Muitas vagas e sensação de reaquecimento da economia Por isso, a área de desenvolvimento de software tem despertado interesse em muitos profissionais de outras áreas que desejam mudar de profissão, já que as oportunidades de trabalho tendem a ser maiores. Esse é um perfil presente em muitos dos clientes da Globalcode que acabou m

Segurança da informação no alvo: o que esperar do futuro?

A segurança da informação não se trata apenas de proteger os dados contra acesso não autorizado. Na prática, refere-se aos recursos que impedem: uso; registro; inspeção; divulgação; interrupção; modificação; destruição de dados. O uso de dados pode abranger desde um perfil nas redes sociais a detalhes financeiros, biometrias ou novos projetos. Por isso, a preocupação com a proteção dos dados é crescente, tanto para empresas quanto clientes. Para muitas pessoas, a coleta de dados é considerada invasão de privacidade, criando desconfiança do titular dos dados, pois o uso dos dados pode ser facilmente corrompido, utilizado para fins não declarados. Apesar de o uso dos dados terem impulsionado os avanços tecnológicos na última década, as organizações lidam com o desafio de distinguir dados de informações pessoais de modo a proteger a privacidade e as preferências dos clientes. Neste artigo, abordaremos o impacto da segurança da informação e o que esperar do futuro. Confira casos conhecido

TDC ONLINE: SUA PLATAFORMA DE PALESTRAS GRAVADAS DO TDC DISPONÍVEL

Além do conteúdo ao vivo transmitido online nas edições do TDC, agora você pode ter acesso à centenas de palestras gravadas, através da nossa nova plataforma de vídeos - o TDC Online, que reúne todas as Trilhas premium, Stadium e Salas dos Patrocinadores das edições anteriores de 2022, TDC Innovation e TDC Connections.  Para acessar, basta clicar na edição em que você participou ( TDC Innovation ou TDC Connections ); Fazer o mesmo login (com e-mail e senha) cadastrados na hora de adquirir ou resgatar o seu ingresso no TDC; E clicar na Trilha de sua opção, e de acordo com a modalidade do seu ingresso. Logo em seguida, você será direcionado para a seguinte página com a lista de todas as palestras por Trilha: Pronto! Agora você tem acesso à centenas de palestras gravadas da sua área de interesse, para assistir como e quando quiser! Caso tenha esquecido a senha, clique na opção "Esqueci a senha" , insira o e-mail que você realizou para o cadastro no evento, e aparecerá a op