Pular para o conteúdo principal

Como Scala melhorou meu código Java

Ontem publiquei no meu blog pessoal algumas críticas ao método clone. Eu diria que esse é um assunto um pouco delicado. Resolvi escrever um pouco aqui também em homenagem a uma discussão sobre este mesmo assunto que tivemos em uma das turmas da Academia do Arquiteto, alguns meses atrás.

Antes de entrar nos detalhes, vamos deixar claro o ponto aonde vamos chegar: objetivos imutáveis podem ajudar muito na qualidade do nosso código, e estudar a linguagem Scala me ajudou a enxergar isso. Dito isso, vamos aos pormenores.

O método clone tem pelo menos dois grandes problemas. O primeiro deles é conceitual. Para suportarmos operações de clone em nossos objetos, temos que implementar a interface Cloneable. Faria todo o sentido do mundo, se o método clone estivesse definido nesta interface, e não em Object.

O segundo problema é de ordem mais prática. Vejamos o código abaixo, em Scala, que é o mesmo que usei no meu post mencionado acima:

class A(b: B) extends Cloneable {
  override def clone() = super.clone
  override def toString() = "[A: %s]".format(b)
}

class B(c: C) extends Cloneable {
  override def clone() = super.clone
  override def toString() = "[B: %s]".format(c)
}

class C(var x: Int) extends Cloneable {
  override def clone() = super.clone
  override def toString() = "[C: %d]".format(x)
}

val c = new C(10)
val b = new B(c)
val a = new A(b)

val a2 = a.clone
c.x = -99

Temos três classes, A, B e C. Criamos um objeto a, e depois clonamos ele. O clone, diferente do que pode parecer, faz apenas uma cópia rasa do objeto. Ou seja, ele não vai criar um novo b dentro do a, vai apenas copiar a referência. Se quisermos uma cópia profunda, criando novos objetos internos, temos que implementar isso na nossa sobrecarga do método clone. Veja o que acontece na versão atual:

scala> println(a)
[A: [B: [C: -99]]]

scala> println(a2)
[A: [B: [C: -99]]]

Ou seja, a última linha, c.x = -99, alterou tanto o a quanto o a2, o que não era o que gostaríamos.

E o que Scala tem a ver com tudo isso? Imutabilidade. Isso não é excluisivo desta linguagem, mas um dos pensamentos que linguagens funcionais (o que inclui Scala) traz é a preferência por estruturas de dados imutáveis.

E é aqui que Scala ajuda a melhorar nosso código - nos expondo a novas idéias. Em um pensamento "tradicional" na linguagem java, a tentação seria sobrescrever corretamente o método clone, mesmo isso dando um certo trabalho, e com grande risco de não funcionar corretamente.

Nosso novo pensamento é: vamos remover completamente a funcionalidade de clone e vamos tornar os objetos imutáveis. Algo assim:

case class A(b: B, name: String)
case class B(c: C)
case class C(x: Int)

val c = C(10)
val b = B(c)
val a = A(b, "jcranky")

Agora todos os elementos das nossas classes são imutáveis - i.e. não podem ser alterados. Se quisermos alterar alguma coisa, temos que fazer o que já sabemos fazer com Strings: criar um objeto novo, com a alteração desejada. Denovo no meu post mencionado lá em cima, eu explico um pouco mais sobre como criar esse objeto novo, sem ter que fazer muito trabalho manual.

Além da corretude do código, isso traz diversos outros benefícios, como a não necessidade de locks - o estado não muda, não precisamos bloquear o acesso a ele.

E isso, é claro, é apenas um exemplo. Scala tem muito mais recursos interessantes que, mesmo quando não estamos usando a linguagem, servem para abrir nossa cabeça.

Se quiser saber mais sobre Scala, na semana que vêm teremos mais um turma do Mini Curso gratuito de Scala. E em setembro teremos a primeira turma do Core Scala, um treinamento completo nesta linguagem.

Por fim, o Kleber também publicou dois posts muito bons sobre como começar a programar em Scala, aqui e aqui. Vale a pena ler.

----------
contatos:

blog: http://jcranky.com
twitter: http://twitter.com/jcranky
scaladores: http://scaladores.com.br
core scala:  http://www.globalcode.com.br/treinamentos/cursos/core-scala

Comentários

Yara Senger disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
Yara Senger disse…
Muito bacana este post!Parabens!

Postagens mais visitadas deste blog

10 reasons why we love JSF

1. One-slide technology: it's so simple that I can explain basic JSF with one slide. 2. Easy to extend: components, listeners, render kit, Events, Controller, etc. 3. Real-world adoption: JBoss, Exadel, Oracle, IBM, ... 4. Architecture model: you can choose between more than 100 different architecture. 5. Open-mind community: using JSF you are going to meet very interesting people. 6. We are using JSF the last 5 years and we found very good market for JSF in Brazil 7. Progress: look to JSf 1.1 to JSF 1.2, JSF 1.2 to JSF 2.0. People are working really hard! 8. Many professionals now available 9. It's a standard. It's JCP. Before complain, report and help! 10. Ed Burns, spec leader, is an old Globalcode community friend! EXTRA: My wife is specialist in JSF. She's my F1 for JSF :) Nice job JSF community! -Vinicius Senger

Vem vindo novidade por ai... Minicurso de desenvolvimento iOS

Ola pessoal, Depois de uma conversa com a Yara, resolvemos colocar em prática uma idéia que já tinhamos a um tempo, que é aumentar as opções de mobilidade no portifólio da Globalcode e também da iniciativa Open4Education. E nesse caso estamos falando de um minicurso sobre desenvolvimento para iPhone e iPad. O objetivo desse minicurso vai ser mostrar que desenvolver para iOS não é tão complicado como se pode pensar e que não é preciso ter medo do Objective-C ! Serão algumas horas onde os alunos poderão entender os fundamentos da plataforma, como funciona o programa para desenvolvedores da Apple, preparação do ambiente e dos devices de teste e também um overview dos layers de desenvolvimento do iOS. Além disso, o objetivo também vai ser passar um pouco da minha experiência na "migração" que fiz de Java (seja SE, ME ou Android) para o novo mundo do Objective-C e Cocoa Touch. O material está no começo e ainda não temos uma data certa (só sabemos que a primeira edição desse minicu...

Facelets uma forma mais ágil para construção de telas – Parte I

A construção de telas ou camada de apresentação em um sistema MVC seja web ou desktop é uma tarefa complexa e de extrema importância. Nesse post vou comentar e mostrar algum exemplo do Facelets como solução para os desafios existentes nessa etapa especificamente para web. Com a web cada vez mais presente em nosso dia-a-dia, um fato é que com isso nossos usuários tornam-se mais exigentes em relação a usabilidade, agilidade, performance ou de uma forma bem resumida “o usuário espera uma navegação simples e agradável aonde uma determinado tarefa possa ser concluída em poucos passos e em um curto espaço de tempo”. Atender as expectativas em relação ao que o usuário espera com o que realmente ele precisa, definir uma estrutura flexível a mudanças sem engessar o desenvolvimento, acessibilidade, portabilidade em múltiplos navegadores, tudo isso e muito mais, num prazo que quase sempre é apertado. Um outro ponto fundamental é manter o time motivado e produtivo em um ambiente que favoreça a...

JavaMail: Enviando e-mail com Java

Introdução Além da necessidade de envio de e-mail ser comum a várias aplicações, foi a pergunta de um aluno da Academia Java ,  “Como enviar um e-mail com Java?”, que me motivou a escrever este post sobre JavaMail. JavaMail Para realizar o envio de e-mail por meio de uma aplicação Java, precisamos da biblioteca JavaMail, pois ela não é incluída no Java SE. A biblioteca está disponível em http://www.oracle.com/technetwork/java/index-138643.html . Neste download, além da biblioteca mail.jar que inclui a implementação completa da API e providers, também é disponibilizada a documentação da biblioteca ( javadoc ) na pasta docs , alguns exemplos na pasta demo e partes da implementação em lib . A forma mais simples de utilizar a JavaMail e incluir o mail.jar , porém para uma aplicação que só envia e-mail como o nosso exemplo, necessitamos apenas dos arquivos mailapi.jar e smtp.jar , economizando 177KB. Como a economia é pouca e as aplicações evoluem, vamos adicionar o mail.j...

D.B.C.D. - Desenvolvimento baseado na "Caverna do Dragão"

Depois de muito tempo sem assistir este épico desenho, acabei topando com ele novamente enquanto esperava minhas crianças acordarem (é sério mesmo!). Assisti por 60 segundos e logo peguei meu laptop pois acabava de ter o meu último insigth do ano: você já imaginou ensinar desenvolvimento de software para aqueles personagens? Teríamos uma equipe PERFEITA, pense bem: - Bob: o jovem valente com um tacape aparentemente podereso, mas poucas vezes ajuda efetivamente. É o programador Ruby on Rails. - Daiana: teríamos aquela jovem com bastão mágico que pode dar longos pulos. Casa perfeitamente com metodologias ágeis e Sprint. - Erick: o bundão com aquele escudo. É o cara da auditoria PMI com pós em CMM. Sabe tudo de logs é expert em TXT. - Sheila: a fulana que tem a capa que pode sumir. Bem, essa nem precisa de explicação. Muitos programadores sofrem de síndrome de Sheila. - Presto: é o mágico que em situações extremas tenta tirar algo do chapéu, mas nunca funciona. Basicamente é...

JavaOne Brasil, dicas para submissão de palestras

Não quero parecer pretensiosa dando dicas para submissão de palestras para o JavaOne Brasil, mas sim repassar os tantos conselhos e sugestões recebidas pelos vetaranos do JavaOne: Bruno Souza e Leonardo Galvão que revisaram dezenas de submissões para o JavaOne e ajudaram a aprovar tantas palestras, e também misturar um pouco da minha experiência na seleção de palestras nos eventos realizados pela Globalcode e SouJava . 10 anos de JavaOne: http://www.globalcode.com.br/noticias/Globalcode10AnosNoJavaOne Os palestrantes ganham a entrada! A submissão pode ser feita em português! O passo mais importante para ser aprovado como palestrante no JavaOne é sem dúvida nenhuma submeter pelo menos uma palestra. Então, independente de qualquer coisa, participe, arrisque, divulgue.  Mas, se quiser aumentar as suas chances...   1) Leve a sério: peça para amigos fazerem uma leitura crítica do texto, e claro uma boa revisão ortográfica. 2) Submissão de várias palestras ou variações do ...