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Reflexões sobre o Agile Brazil

Duas semanas atrás, participei do Agile Brazil, um grande evento da comunidade antenada com metodologias ágeis, que aconteceu em Porto Alegre. Participei apenas dos dois dias de palestras, não dos cursos que antecederam o evento, que segundo relatos foram ótimos. O pessoal da organização está de parabens: o nível técnico do evento foi excelente e os mais de 800 participantes em geral se mostraram muito satisfeitos com o que viram.

Por sorte, a minha palestra "Testar: impossível" foi logo no início do evento, de maneira que consegui curtir melhor o restante do evento. Alguém falou para mim que não acreditava que testar fosse impossível: nem eu, mas tentei passar a ideia de que testar não é trivial, ilustrado por uma imagem inicial inspirada no mito de Sísifo. Surpeendentemente para mim, o auditório da palestra lotou, apesar de haver 5 sessões simultâneas, até com palestrante internacional. Bom, afinal eu também sou internacional...

Acredito que o interesse da plateia se origina nas dificuldades práticas de aplicar testes quando os testes começam a ser levados à sério, que é uma característica esperada em organizações transicionando para desenvolvimento ágil. Não há agilidade sem testes.

A cada evento, percebe-se que as pessoas trazem mais questões práticas e que cada vez há menos interesse em apresentações do tipo "Agile é o máximo". Quais foram os temas mais falados no evento ?

Do meu ponto de vista (obviamente parcial), houve um número expressivo de palestras falando sobre testes. Boa parte da trilha de engenharia foi tomada por assuntos relacionados a testes.

Arquitetura foi outro tema que teve um grande apelo: ficou superada a ideia de que uma arquitetura emergisse espontaneamente sem haver algum tipo de trabalho prévio. Estamos tentando achar um equilíbrio que não inclua arquiteturas mirabolantes, genéricas e de aplicação supostamente universal nem a fé injustificada na geração espontânea de uma arquitetura consistente a partir do nada.

Relativização da aplicação de metodologias, principalmente Scrum, "by the book". Comparando, por exemplo, com as duas edições do Ágiles (Baires 2008 e Floripa 2009), parecia haver um consenso quase geral (meio "bala de prata") a favor do Scrum de carteirinha. A ideia de "Scrum but" ser necessariamente algo ruim está sendo contestada, sem que o palestrante que faz tal afirmação corra o risco de ser queimado na fogueira por blasfêmia.

As práticas de eXtreme Programming estão voltando a ser valorizadas. Muitas equipes estão descobrindo que não podem deixar de lado as práticas técnicas, e XP articula muito bem uma dinâmica que aproveita a sinergia entre essas práticas. Entre estas, falou-se bastante de integração contínua e de deploy contínuo.

Outro assunto recorrente, derivado também do esquecimento temporário da necessidade de investir na excelência do ofício, foi o da dívida técnica. Participei de uma muvuca ("open space"), convocada por Philippe Kruchten, onde este assunto foi destrinchado.

Causou bastante impacto a palestra do Klaus Wuestefeld, uma das últimas, que retomou o espírito de quando Agile era novidade. Para quem não conhece, o Klaus foi pioneiro na implantação de práticas ágeis no Brasil. Ele organizou os dois primeiros eventos sobre o assunto: XP Brasil 2002 e 2004, nos quais tive a honra de palestrar. Naquela época, "agile" não era fashion: a resistência da turma da gestão era tamanha que, depois de alguém apresentar uma palestra de XP ou Scrum na empresa, os gerentes baixavam decretos proibindo a implantação desse tipo de coisas em suas sacrossantas estruturas de comando e controle. Aconteceu exatamente isso quando convidei o Klaus para palestrar em um condomínio de empresas de tecnologia, por volta de 2003.

O paradoxo é que eu mesmo comecei a me interessar por "metodologias leves" em 2000, justamente em reação à utilização de um tal de "RUP" no projeto em que estava envolvido. Eu me questionava: deve haver uma forma mais racional (sem trocadilhos) de levar adiante o desenvolvimento de sistemas. Descobri o ensaio "A nova metodologia", escrito por Martin Fowler (também presente ao evento) em 1999: a partir dai comecei a puxar o fio da meada, começando por XP. Agora, 10 anos depois, tive a oportunidade de conversar bastante com o Philippe Kruchten, o pai do RUP, que me impressionou muito favoravelmente: afinal, o framework de processos por ele proposto tinha várias boas ideias.

Pena que essas ideias foram enlatadas e marqueteadas como metodologia proprietária por uma corporação interessada principalmente em vender ferramentas CASE por preços nada camaradas. Deu no que deu: na esmagadora maioria das implantações, virou um cascata com artefatos UML: o Processo mUmificado. Aliás, para quem trabalhava com TI nos anos 90 era natural que empresas oferecessem metodologias proprietárias: na prática, um conjunto de formulários e templates que tinha pouca utilidade fora do contexto da empresa que o havia criado. Hoje nem se fala nesse tipo de oferta: ninguém mais acha sentido.

Se tivesse que apostar nas tendências para a próxima temporada de eventos de Agile, seriam Lean, Kanban e assuntos de governança. Vamos aguardar os próximos. Torço para que Dev+Ops, naked planning, usabilidade, gestão de riscos e práticas ágeis para a qualidade entrem também na pauta.

Jorge Diz
twitter: @jorgediz

Comentários

Unknown disse…
Parabéns pelo post!

Mostra um ponto de vista mais crítico do que aquele apresentado por aí, por vários agilistas, sobre o evento e a comunidade de métodos ágeis!
Yara Senger disse…
Eu tambem gostei bastante. 100% estilo Jorge Diz.
Gostaria de mais opiniões sobre o Scrum but e o Scrum by the book. :)
[]s
Yara
Grande Jorge.
Parabéns pelo texto.
Grande abraço.

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